ela permitiu que seu corpo levantasse
um pouco mais adiante do tempo
de costume.
Mesmo com as visitas em casa,
ela se permitiu —
sem culpa.
Levantou-se e foi preparar o café:
ritual arboreal e contínuo,
quase automático de todas as manhãs.
Mesmo não sendo tão cedo.
E como haveria de preparar mais café que o habitual,
pois havia mais gente em casa,
o pó — úmido, preto, cheiroso —
transbordou.
Transbordou como há muito tempo
ela não ousava deixar transbordar.
Derramou-se sobre a pia
um misto de cheiro e sabor quente,
inacreditavelmente suaves.
Sem culpa.
Transbordou assim —
como às vezes as coisas da vida
também saem do controle
e transbordam.
Dias antes,
a menina havia transbordado também.
Ao menos, foi isso que descobriu
em sua análise.
Mas não sentia culpa
por esse transbordamento da vida —
do sentimento,
das paixões,
das emoções.
A culpa não acompanhava
a estrutura do sentir.
A menina sentia.
E pronto.
Soube que transbordava
só depois da sessão.
Mesmo assim,
não se importou.
Segue transbordando:
vida, dor, paixão, tesão, desejo, vontades.
Só o desejo não transborda.
É traiçoeiro.
Escorregadio.
A menina não o alcança —
nunca, jamais.
Não toca, não cheira,
não segura.
Desejo é palavra-diamante:
indestrutível,
fria,
intocável.
É coisa que anda no bolso do outro.
A menina sabe que está lá,
mas não ousa pedir,
nem olhar.
Porque desejo é como mosca na sopa:
você mata uma,
e vem outra no lugar.
Visível, porém intocável.
E assim,
a menina viveu os dias:
um, outro,
e mais um...
Até que se deu conta
de um botão vermelho, astuto,
pregado à consciência —
chamado FODA-SE.
Depois que aprendeu a apertá-lo,
boa parte dos problemas
imaginários e cotidianos
se dissolveram.
Hoje, a menina dança.
Ainda dentro da roda da vida,
mas agora consciente
dos seus limites e liberdades.
Aprendeu onde fica o botão —
esse botão precioso,
libertador de culpas,
de sintomas que nem eram seus,
botão do gozo da vida.
E sempre que for preciso,
a menina sabe:
> Sentiu?
Transbordou?
Caso de emergência?
Botão do Foda-se.
Boa sorte a todo mundo.
Conheçam o botão.
Cada um tem o seu.
E todos são lindos.
🎶 Sugestão musical: “Mosca na Sopa” — Raul Seixas.
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