terça-feira, 11 de novembro de 2025

O quarto dos fundos

Havia um quarto nos fundos.

De chão gasto, de silêncio antigo,

onde eu limpava vestígios de outros mundos.

Entre baldes, panos e memórias,

eu recolhia restos de histórias que não eram minhas —

mas que me atravessavam como se fossem.


Dessa vez, o destino pregou uma peça:

eu ia atender meu supervisor.

Ele, o psicanalista.

Eu, a empregada doméstica.

Mas o tempo riu da hierarquia

e trocou as cadeiras.

Ele me esperava,

e eu me atrasava uma hora inteira —

como quem ainda precisa de tempo pra nascer.


Quando cheguei, o quarto estava cheio.

Gente do CAPS, olhares, palpites,

vozes falando todas ao mesmo tempo

sobre o que é o cuidado.

O sagrado da escuta virou confusão.

A alma, interrompida.


Então algo em mim se ergueu.

Respirei fundo, e pedi que todos saíssem.

Um a um, foram deixando o espaço.

O último olhar fechou a porta.

E ficou o silêncio.


Ali, compreendi.

Não era mais a mulher dos fundos.

Era a terapeuta que sabe o peso e o valor do seu tempo.

Que reconhece a força do seu lugar de fala.

Que sustenta o vazio,

o fértil, o necessário.


A sessão não era com ele.

Era comigo.

O inconsciente se apresentou —

e eu, enfim,

me sentei à minha própria poltrona.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O salto que quebrou o silêncio

 Texto de 27/06/2025


Era só um encontro.

Três meses de silêncio guardados como quem segura o ar por tempo demais.

Preparei a roupa, o perfume, a coragem.

Cada detalhe era um cuidado — não comigo, com o impacto.

Eu queria ser lembrança marcante, não mais ausência esquecida.


A bota, alta, firme, bonita.

Eu estava pronta.

Ou achei que estivesse.


Na calçada molhada da ansiedade, o salto quebrou.

Estalou seco, como um aviso.

O chão me chamou de volta:

"Não vá tentando ser mais do que é.

Vai assim, como você é.

Com medo, com saudade, com o pé no chão."


Fiquei parada.

Rindo da tragédia elegante.

Não era mais sobre ele.

Era sobre mim.


Talvez o salto tenha quebrado pra eu entender que,

entre o orgulho e o encontro,

quem decide sou eu —

mesmo que torta, mesmo que sem salto,

mas inteira.

Por um fio

 (escrito na pandemia)


Um dia acordei e me dei conta de que me tornei íntima dessa casa.


Cada pequena parte, cada parede, cada canto revelam o que eu mais temia:

me tornar parte da mobília.


É uma intimidade constrangedora.


Toda coisa fora do lugar — o rejunte pedindo cloro, a gordura grudada na poeira das partes altas da cozinha —

tudo conversa comigo, tudo pede socorro.


Acalmo os ânimos dando conta do que é possível fazer.


As roupas que estrangulei no armário riem de mim,

e eu rio de volta, sem muita esperança de ajeitar.


Tenho sapatos novos — dois pares.

Um deles uso em casa, na falta de onde ir.

Só pra enganar a parte lógica e racional,

faço charme pros meus pés ficarem enganados,

felizes de sentir que ainda podem caminhar vestidos,

sem ser com as chinelas e meias

com as quais desenvolveram uma relação profunda.


As plantas são excelentes quando se trata de expressar o desejo.

Com elas, a convivência é simples: dizem o que querem —

sol, sombra, vento, água —

e quando eu não dou conta de entender,

elas simplesmente se vão.

Sem o menor ressentimento.

Nem delas, nem meu.


Sinto medos que nunca senti antes.

Medos estranhos,

coisas sem jeito de explicar.


Tudo por um fio.


Maldita a palavra mal dita.

Na hora e no lugar errados.


Tentativas, erros, acertos, desistências, persistências —

tudo por um fio.


Trabalho on-line, diversão on-line, necessidades on-line,

reuniões on-line, aniversário on-line —

tudo on-line,

tudo por uma linha,

tudo por um fio.


Haja saúde mental, saúde emocional, saúde física —

haja saúde!


Tantos finais de semana passei bebendo na solitude,

convicta de que era redução de danos

diante de tanto buraco existencial.


Bobagem.


O vazio não se enche nunca.

Ele cresce, torna-se parte da mobília,

impregna-se nas paredes

com a força do pó com gordura.


As notícias chegam e trazem tristezas amarradas:

sangue de pobre escorrendo,

povos expulsos de suas terras,

mulheres, trabalhadoras, crianças

sofrendo com a violência do Estado.


Tudo muito brutal.

Tudo violento.

Tudo por um fio.


É um país inteiro sangrando.


É só povo segurando na mão de povo,

nas ondas de solidariedade

que também vão se esgotando.


Como tudo se esgota, por aqui,

na minha subjetividade.


A banalização do mal.

A naturalização da dor.

Do sofrimento.

Da morte.


Tudo por um fio —

numa dimens

ão que assusta

de tão natural.


Como se tudo na vida

tivesse se tornado

parte da mobília.


domingo, 9 de novembro de 2025

Desejo, Substância da Subversão


E afinal, o que é o desejo?

Essa instituição invisível onde ninguém entra sem se perder.
Esse vazio que também é presença.

Desejo é o que falta —
mas é também o que pulsa, o que acende,
o que se mostra e se esconde no mesmo gesto.

É metáfora e matéria,
é quase toque, quase verbo, quase vida.

E quando o alcançamos,
ele já é outro.
Muda de forma, muda de cor,
escapa pelas frestas do real.

O real é o contrário do desejo.
O desejo é chama;
o real, cinza.

No instante em que o desejo se concretiza,
ele se desmancha —
vira outra substância,
menos brilhante,
menos febril.
Frágil, quase dócil,
como se perdesse a pele que o mantinha vivo.

Desejo é o que não cabe.
É o resto, a sobra,
o que ficou pela metade,
o que quase foi.

É o motor secreto das coisas,
a engrenagem que gira mesmo no escuro,
o fio que nos puxa pra frente,
mesmo quando tudo parece imóvel.

Você ama tudo que tem?
Ou ainda busca o que falta?

Talvez seja isso:
Desejo é o “algo mais” —
a eternidade do inacabado,
a fome que nos sustenta,
a falta que nos move.