— Abra a boca!
— Não posso... tenho uma bala.
— Cuspa e abra!
— Não posso, está alojada.
— Abra e veremos...
Sua boca não está escovada.
— Como poderia?
Tenho uma bala alojada!
Não é doce — é dor.
Não derrete.
Fica.
— Para você, só há uma solução.
Não importa se é bala de chumbo ou de salão.
O que dói não interessa, o que importa é a correção.
— Mas eu só sinto o gosto metálico da vida...
— Silêncio!
No seu caso, não há remédio.
Bom seria a escovação,
mas, na sua condição,
devido à bala,
por sua imaginação,
você está condenado.
— Condenado a quê?
— A ser tratado.
A ser trancado.
Guardado.
Trancafiado.
Você não tem dentes, tem delírios.
Não tem dor, tem diagnóstico.
Não tem fome, tem sintoma.
Eu decreto, de hoje em diante:
seu caso é de internação.
— E a bala?
— A bala fica.
É o que mantém você falando.
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