sábado, 27 de junho de 2015

Terenas

Filha de operário,
vida de viajante.

Na infância,
pequena nômade —
de muitas paragens,
de tantas moradas,
de inúmeros amigos.

Poucos deixaram tanta saudade
quanto os Terenas mirins.

Saudade do quintal,
tão perto do Pantanal...

O caminho da escola era longo,
o sol rachava a moringa,
que logo se refrescava
à margem do rio Miranda.

Correr com índio e macaco
era tudo que eu queria.
Era tudo que eu esperava.

Quando chegava tal dia,
juntava os amigos da vila
e o mato atravessava
até que a aldeia alcançava.

Catar coquinho, chupar manga —
era a maior alegria.
Brincadeira de criança
só vale se tem fantasia.

Às vezes a gente fugia,
fugia o dia inteiro,
em busca de um paradeiro
que a nós transformaria.

Quem chegasse lá primeiro,
onde nasce o colorido,
recebia seu prêmio:
menina virava menino,
e guri virava guria.

O desejo não engana.

E pensando na mudança,
virar menino não era
o que a mim me bastaria.

Mas eu tinha esperança,
na ideia de criança,
que completando a andança...

Um índio eu viraria.




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