Filha de operário,
vida de viajante.
Na infância,
pequena nômade —
de muitas paragens,
de tantas moradas,
de inúmeros amigos.
Poucos deixaram tanta saudade
quanto os Terenas mirins.
Saudade do quintal,
tão perto do Pantanal...
O caminho da escola era longo,
o sol rachava a moringa,
que logo se refrescava
à margem do rio Miranda.
Correr com índio e macaco
era tudo que eu queria.
Era tudo que eu esperava.
Quando chegava tal dia,
juntava os amigos da vila
e o mato atravessava
até que a aldeia alcançava.
Catar coquinho, chupar manga —
era a maior alegria.
Brincadeira de criança
só vale se tem fantasia.
Às vezes a gente fugia,
fugia o dia inteiro,
em busca de um paradeiro
que a nós transformaria.
Quem chegasse lá primeiro,
onde nasce o colorido,
recebia seu prêmio:
menina virava menino,
e guri virava guria.
O desejo não engana.
E pensando na mudança,
virar menino não era
o que a mim me bastaria.
Mas eu tinha esperança,
na ideia de criança,
que completando a andança...
Um índio eu viraria.
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