sábado, 27 de junho de 2015

Sobre o sábado de aleluia

Não tenho religião.
Tampouco acredito em nada... nem em mim.

Passei muito tempo, quando criança, temendo.
Temendo e temendo, sem saber bem o quê.

Na sexta-feira santa, lá em casa,
não se penteava nem os cabelos.
Coisas simples — escovar os dentes, varrer a casa —
eram vistas como profanação.

Palavrão então... nem pensar!
(“Sé loco, tio!” — como dizem hoje em dia).

Ninguém podia fazer nada além de respirar e chorar o dia todo.
E eu achava tudo muito triste,
mas parecia que tinha que ser assim.
Nunca entendi bem o porquê.
Tipo Chicó, em O Auto da Compadecida:

> “Só sei que foi assim.”



Passava a sexta nessa agonia.
Mas o pior era o sábado.
Sábado de Aleluia.

Quando eu ouvia esse nome, um nó me subia no peito.
Dava, porque hoje já não dá mais.

Sábado de Aleluia era o dia da libertação —
mas não da nossa.

Era a redenção do meu pai,
que passava a sexta em silêncio,
sem brigar, sem gritar,
segurando a raiva o dia inteiro.
No sábado, libertava tudo.

E o que ele libertava tinha forma de cinta, de chinelo, de varinha.
Era o dia de “tirar a Aleluia”.
E o coro comia.

Sem motivo.
Sem causa.
Era assim, e pronto.

Eu morria de medo de passar perto do meu pai.

Durante muito tempo achei que ele era doido.
Só mais tarde, já adulta,
descobri num livro de Mario Vargas Llosa
(Pantaleão e as Visitadoras)
que, no Peru, havia algo parecido —
um costume de bater nas crianças no sábado de Aleluia
pra espantar os maus espíritos.

Não sei o que meu pai queria com aquilo.
Não sei se acreditava nisso.
Mas sei que não era comigo.
E se era...

Sinto muito, papai.
Não funcionou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário