Não tenho religião.
Tampouco acredito em nada... nem em mim.
Passei muito tempo, quando criança, temendo.
Temendo e temendo, sem saber bem o quê.
Na sexta-feira santa, lá em casa,
não se penteava nem os cabelos.
Coisas simples — escovar os dentes, varrer a casa —
eram vistas como profanação.
Palavrão então... nem pensar!
(“Sé loco, tio!” — como dizem hoje em dia).
Ninguém podia fazer nada além de respirar e chorar o dia todo.
E eu achava tudo muito triste,
mas parecia que tinha que ser assim.
Nunca entendi bem o porquê.
Tipo Chicó, em O Auto da Compadecida:
> “Só sei que foi assim.”
Passava a sexta nessa agonia.
Mas o pior era o sábado.
Sábado de Aleluia.
Quando eu ouvia esse nome, um nó me subia no peito.
Dava, porque hoje já não dá mais.
Sábado de Aleluia era o dia da libertação —
mas não da nossa.
Era a redenção do meu pai,
que passava a sexta em silêncio,
sem brigar, sem gritar,
segurando a raiva o dia inteiro.
No sábado, libertava tudo.
E o que ele libertava tinha forma de cinta, de chinelo, de varinha.
Era o dia de “tirar a Aleluia”.
E o coro comia.
Sem motivo.
Sem causa.
Era assim, e pronto.
Eu morria de medo de passar perto do meu pai.
Durante muito tempo achei que ele era doido.
Só mais tarde, já adulta,
descobri num livro de Mario Vargas Llosa
(Pantaleão e as Visitadoras)
que, no Peru, havia algo parecido —
um costume de bater nas crianças no sábado de Aleluia
pra espantar os maus espíritos.
Não sei o que meu pai queria com aquilo.
Não sei se acreditava nisso.
Mas sei que não era comigo.
E se era...
Sinto muito, papai.
Não funcionou.
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