segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Sobre Sérgio Sampaio, Chico, Zezé e Futebol...

Vamos lá.
Vejo pouca diferença entre Chico Buarque e Zezé Di Camargo e Luciano quando falam de amor.
É sério.
Os dois — cada um do seu lado do palco — cantam o mesmo enredo:
a dor, a falta, o vazio deixado pelo amor.

O que muda é o timbre, o cenário.
Mas quase sempre quem fala, mesmo quando é homem,
fala com voz de mulher.

É ela que sofre.
É ela que pede.
É ela que sente demais.

E eles — mesmo sendo poetas, compositores, cronistas do coração —
parecem apenas emprestar a boca pra essa voz feminina que a cultura autoriza sentir.

Mas me diga:
quantas vezes você ouviu um homem cantar, sem medo,
“meu peito está dilacerado”?
Poucas, né?
Porque o patriarcado até deixa o homem sentir —
mas não o deixa dizer.

Aí vem Sérgio Sampaio.
Louco, intenso, autêntico.
E fala o amor com a própria garganta.
Sem filtro, sem vergonha, sem pedir desculpa.
Fala do amor, da vida, da loucura,
como quem abre a camisa e o peito.

Sampaio é o homem que ousou chorar em voz alta,
rindo da própria dor.
Um desses malucos necessários que ainda me ensinam
que o amor precisa de coragem pra ser verbo.

E sabe onde mais o homem se permite sentir?
No futebol.
Sim, no futebol.

Ali eles se abraçam, se beijam, se empurram, se bagunçam —
choram como crianças
e gritam como quem foi salvo.
No campo, eles se tocam sem culpa.
No campo, eles são emoção pura.

O gol é a brecha da alma masculina.
É o momento em que o corpo diz o que o patriarcado censura.

E eu penso nos meus filhos.
Três.
Homens.
Ontem vi um deles ajoelhado, pedindo a mão da namorada.
Ninguém ensinou isso a ele.
Nem a mim coube essa aula.
Mas aprendeu, observando, que amor é coisa que se vive de peito aberto.

Não precisei dizer:
eles viram.
Sentiram.
Aprenderam que amar é pra ser amado com grandeza,
sem vergonha,
sem medo.

Amar é comemorar.
Como se cada abraço fosse um gol no jogo da vida.

E se for pra dizer que ama,
diga como Sérgio Sampaio:
com voz rouca, sincera, desarmada.
Que amar é mesmo coisa de doido —
mas é a doideira mais bonita que existe.

domingo, 28 de outubro de 2018

Contradição

Sou Contradição às Vezes

(versão simbólica e sensorial por Rosana Camilo)

Sou contradição às vezes.
Noutras, sou convicção.

Chego como quem já vai partir,
mas fico —
fico mais do que devia,
mais do que esperam,
mais do que cabe.

Faço esforços inúteis
pra alcançar o que me fere.
O desejo é faca e flor,
é veneno e reza.
E mesmo quando ele rasga a alma,
ainda assim eu quero ficar.

Porque sou contradição às vezes,
noutras, convicção.

Através do teu silêncio
alimentei meus fantasmas.
Eles cresceram.
Tornaram-se montanhas dentro de mim.
Hoje os atravesso —
um por um,
como quem atravessa um espelho.

E cada silêncio me devolve um rosto,
cada ausência me ensina um nome,
cada sombra me lembra quem sou.

Sou contradição às vezes.
Noutras, sou convicção.
E é nesse vai e vem
que me descubro viva.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Cuia

🕯️ “Dizem que os cachorros nos levarão água na cuia de suas cabeças quando morrermos.”
Frase dita por minha avó)

Naquela tarde, se eu pudesse, em vez de enterrar o cão envenenado, teria enterrado a mim mesma — pra não sentir a dor que se sente quando a humilhação chega ao limite da alma.

Por circunstâncias da vida e do avanço urbano, fui desapropriada da minha antiga casa.
Era simples na construção, mas farta em vida: horta, frutas, peixes e bicho.
Ali meus filhos deram os primeiros passos — livres, como os pés de hortelã rasteiros pelo chão.
Aprenderam a nadar antes de ler, porque o quintal era margem de represa.

O deslocamento foi brutal.
Mudou o espaço, o corpo, o tempo e o ar.
Foram quatro anos até a nova casa ficar pronta — uma casa com luz, mas sem sol; com espaço, mas sem “jeito”.
Havia conforto, mas faltava alma.

Meu terceiro filho nasceu já nesse novo lugar.
E entre o puerpério e os deslocamentos, precisei trabalhar.
Aceitei o emprego de faxineira no mesmo condomínio que agora abrigava os novos retirantes — tão perdidos e desalojados quanto eu.

Ali, suportei misérias inimagináveis em troca de um salário mínimo.
Por mais que eu limpasse — com cloro, desinfetante tutti-frutti, talco, violeta, jasmim, eucalipto — o cheiro da indecência não saía.
Ficava impregnado embaixo das escadas, como cicatriz de sujeira moral.

As pessoas ainda não acostumadas à nova vida começaram a fazer suas necessidades ali mesmo, nas sombras dos prédios.
Com o tempo, aprendi a reconhecer o autor da bosta.
Sim, quando se especializa nisso, a merda vira íntima.
Dá pra diferenciar a de criança, de adulto, de cachorro e até de bêbado.
Os bêbados, esses, são sinceros: cagam onde dá, mas com uma dignidade estranha.

Quando descobri quem eram, fui até eles.
A pouca vergonha cessava por uns dias, mas voltava — às vezes líquida, às vezes misturada com raiva e urina.

Mas nada disso — nem a sujeira, nem o cheiro, nem a humilhação — me preparou pro dia em que o cão foi envenenado.

Muitos haviam abandonado seus bichos ao mudar pro condomínio dos Retirantes Confusos.
Quem não tinha escrúpulo com as próprias fezes, imagina com um cachorro.
Envenenaram o bicho e o deixaram morrer encostado no muro frio, do lado de dentro — pra que todos pudessem ver a barbaridade que haviam se tornado.

Ninguém fez nada.
Só quando o fedor ficou insuportável é que Dona Matilde, a síndica, me chamou.
Eu, “a responsável pela limpeza”.
A especialista em merda.

Mas eu não descobri quem envenenou o cão.
E Dona Matilde, dona de tudo, ordenou:

> “Enterre o bicho.”



E lá fui eu — cinquenta quilos de carne, ossos e ódio — carregar o cão, a pá, a enxada e o peso do mundo.
Cavei além do muro.
Três ou quatro me olhavam de longe, gozando o espetáculo silencioso da minha humilhação.

Cavei até o cansaço.
O sol a pino, o corpo pedindo trégua, o buraco pequeno demais pra tanta dor.

E então gritei:

> “Chega! Não consigo mais cavar!”



A plateia, embriagada, riu.
E Dona Matilde decretou:

> “Pega uns sacos de lixo e joga fora.”



E eu obedeci.
Com as mãos trêmulas e o peito rasgado, coloquei o cão nos sacos, amarrei, levei até a lixeira.

E todos voltaram pras suas vidas.
Menos eu.

Naquele dia, uma parte de mim foi junto com o cão pro lixo."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poeminha à Lacan

Escrever é delírio.
Tantos poetas já o disseram.

Deliro porque preciso suportar a vida.

A palavra é peça de xadrez no jogo da poesia:
ora representa o imaginário,
ora o simbólico.

Com ou sem o nome-do-pai,
elas se movem, se deslocam,
ou simplesmente se condensam —
feito metáfora e metonímia.

No real da vida,
só o desejo insustentável habita.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Canto da sereia

Canto pra você
como quem lança rede no silêncio.
Canto de sereia —
em busca de um peito seguro
onde o som possa descansar.

Teu incenso desperta minha flor,
abre o corpo,
fica preso nas narinas
toda vez que ascendo.

Toma meu sumo,
meu suco de corpo,
minha fruta madura.

Come a Lótus —
úmida, orvalhada,
sagrada como o capim
que nasce no abandono.

Não sou santa.
Sou teia.
Sou veia.
E te devoro.

Intimidade não é língua.
É linguagem.
É metáfora.

E agora, me diz:
o que fará com o prato?
Vai lamber o resto
ou jogar o verso fora?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sobre andar de moto (de carona)

Andar de moto de carona não é nada fácil.
Ora o piloto esquece que não está sozinho,
ora é a gente que se preocupa demais com o que vem pela frente.

Nos primeiros dias, foi cômico.
Em cima da 125, eu só pensava em não bater em nada.
Viajava o caminho inteiro torta e dura —
cabeça pra fora do eixo da moto,
tentando espiar o que vinha pela frente,
corpo torto de medo de me ajeitar e causar um acidente.

Lá ia eu:
troncha, com câimbras nas pernas,
bunda fora do banco
e cabeça quase fora da moto.

Hoje, mais acostumada, às vezes ainda acontece.
Se carrego uma mochila pesada e o piloto passa com tudo pela lombada,
tudo sai do lugar:
a mochila puxa pra um lado,
a bunda sai do centro,
as pernas travam.
Só a cabeça continua firme —
porque o medo, esse, nunca sai do lugar.

Ou você aprende a confiar no piloto,
ou vai de carona parecendo um saco de batatas com olhos arregalados.

Claro, há sempre a opção de pilotar a própria moto.
Mas, definitivamente, não é pra mim.

E assim seguimos —
sempre em busca do equilíbrio,
confiando no piloto
quando não é a gente quem pilota.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NaCL(sal)

Há uma lenda antiga — ou talvez só uma sabedoria anônima — que diz que só conhecemos de verdade quem caminha ao nosso lado depois de dividir com essa pessoa os quilos de sal da vida.

Um dia, durante uma DR, cobrei do meu companheiro a falta de envolvimento com as coisas da casa.
Entre frases efusivas e algumas contundentes, disparei:

> “Você sabe se temos óleo em casa? Açúcar? Sal?
Sabe quanto temos de cada coisa?”



E fui seguindo, como quem mede amor em colheres e panelas.

Santiago, meu filho, ouvia tudo com atenção.
Tinha pouco mais de um ano, mas já entendia o essencial da conversa: a importância do sal.

Alguns dias depois, o pai o repreendeu por alguma traquinagem.
E ele, firme e indignado, devolveu sem pestanejar:

> “Pai, você compra sal?
Você nem compra sal e quer brigar comigo?”



Pois é.
O sal é mesmo o que sustenta as relações.
Dá gosto, dá limite, dá corpo.
Na vida familiar, sobretudo nas funções de mãe e pai,
é ele que impede o afeto de azedar.