domingo, 9 de novembro de 2025

Desejo, Substância da Subversão


E afinal, o que é o desejo?

Essa instituição invisível onde ninguém entra sem se perder.
Esse vazio que também é presença.

Desejo é o que falta —
mas é também o que pulsa, o que acende,
o que se mostra e se esconde no mesmo gesto.

É metáfora e matéria,
é quase toque, quase verbo, quase vida.

E quando o alcançamos,
ele já é outro.
Muda de forma, muda de cor,
escapa pelas frestas do real.

O real é o contrário do desejo.
O desejo é chama;
o real, cinza.

No instante em que o desejo se concretiza,
ele se desmancha —
vira outra substância,
menos brilhante,
menos febril.
Frágil, quase dócil,
como se perdesse a pele que o mantinha vivo.

Desejo é o que não cabe.
É o resto, a sobra,
o que ficou pela metade,
o que quase foi.

É o motor secreto das coisas,
a engrenagem que gira mesmo no escuro,
o fio que nos puxa pra frente,
mesmo quando tudo parece imóvel.

Você ama tudo que tem?
Ou ainda busca o que falta?

Talvez seja isso:
Desejo é o “algo mais” —
a eternidade do inacabado,
a fome que nos sustenta,
a falta que nos move.

domingo, 6 de abril de 2025

Prece de Luxúria


Desejo tua presença.

Não é só querer —

é reza,

é febre,

é carne em oração.


Teu cheiro me doma,

suave tempestade,

acalma o caos em mim

como se soubesse o caminho

dos meus labirintos.


Teu gosto —

quente,

denso,

selvagem.

Gruda na minha boca,

fica…

marca.


E teu suor,

ah, teu suor —

é vinho pra minha sede,

é sal pra minha fome,

é tua essência

derretida na minha língua.


Quero teu corpo inteiro.

Mapa sagrado,

bússola invertida.

Percorrer cada centímetro

como quem descobre

um novo mundo

com a ponta dos dedos.


Sonho o possível.

Mas é no impossível

que me perco.

É no impossível

que te vivo.

É no impossível

que somos.


Juntos.

Incontornáveis.

Latinos.

Sangue em ebulição.

Pele, pulsação.

Nós.

Nosso.

Infinito.

Saudade em verso


Tem gosto amargo,
tom de despedida,
essa saudade que mora
entre o peito e a razão.

teu nome ressoa —
é sino, é pulsação.

Nos achamos,
e em nós nos perdemos:
mesmo passo,

Fomos desejo e medo,
nos doemos,

Sonhei teu riso
em dias tão banais —
no sol, na chuva,
no frio a chegar.

Mas restam planos soltos,
nunca mais.
E a dor de não poder
te despertar.

Tua pele em mim,
e o impossível...
ainda é meu encanto.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Shampoo é Privilégio e Deus Morreu pra Nós!

Às vezes eu choro à noite,
deitada na cama,
olhando o teto como quem procura uma fresta.

Choro pelo peso do dia que já foi,
e pelo outro — que ainda vem.
As batalhas nunca se repetem,
mas se revezam:
uma fere o corpo,
outra a fé,
outra o que ainda resta da esperança.

carrinho cheio de trampos,
dois painéis, uma mesa,
a criança, os brinquedos,
e a coragem que sobrou do ontem.

A porta é larga,
mas o ferro no meio da entrada me diz que não é pra todo mundo passar.
O carrinho enrosca,
a mãe fica dentro,
a criança fora,
tentando empurrar o mundo pra dentro do ônibus.

Quando finalmente consigo entrar,
grito, sem medo:

> “isso é viver uma vida sem privilégio!”



A vida também enrosca nos ferros invisíveis:
dos favores, das chances que nunca chegam pra nós.

Mas a gente passa.
A gente passa na marra,
na força,
na brecha.
Mesmo com o corpo cansado,
mesmo com a alma rasgada,
a gente passa.

E segue.

A rotina é um moinho:
moe tempo, sonho e paciência.
Nem o mercado é o mesmo.
Cem reais viram três sacolinhas minguadas —
duas de ilusão, uma de mistura.
O luxo agora é sabonete.
Shampoo virou símbolo de classe.

E me lembro de um dia no metrô,
um crente veio me salvar com as palavras dele.
Dizia que se eu pagasse o dízimo,
Deus abriria minhas portas.

Na cabeça dele, eu era vagabunda —
por trabalhar com arte,
por viver do que é feito à mão,
por acreditar em beleza mesmo quando o mundo fede a miséria.

Falou, falou,
até dizer que Deus era como porta de metrô:
abre pra uns,
fecha pra outros.

Pois é.
Parece que o Deus do metrô também não abre o do trólebus.
E o Uber?
Nem sempre vem.

O Deus que abre portas todas
só atende aos privilegiados.

Mas eu não ando só.

aquele que abre os caminhos de quem anda a pé,
que conhece os becos e as brechas,
que entende a fome e o atraso,
que me guia pelos vãos do impossível.

Laroyê, Exu.
Que me ensina a atravessar,
mesmo quando o ferro aperta,
mesmo quando a porta fecha,
mesmo quando o mundo esquece.

Sobre Sérgio Sampaio, Chico, Zezé e Futebol...

Vamos lá.
Vejo pouca diferença entre Chico Buarque e Zezé Di Camargo e Luciano quando falam de amor.
É sério.
Os dois — cada um do seu lado do palco — cantam o mesmo enredo:
a dor, a falta, o vazio deixado pelo amor.

O que muda é o timbre, o cenário.
Mas quase sempre quem fala, mesmo quando é homem,
fala com voz de mulher.

É ela que sofre.
É ela que pede.
É ela que sente demais.

E eles — mesmo sendo poetas, compositores, cronistas do coração —
parecem apenas emprestar a boca pra essa voz feminina que a cultura autoriza sentir.

Mas me diga:
quantas vezes você ouviu um homem cantar, sem medo,
“meu peito está dilacerado”?
Poucas, né?
Porque o patriarcado até deixa o homem sentir —
mas não o deixa dizer.

Aí vem Sérgio Sampaio.
Louco, intenso, autêntico.
E fala o amor com a própria garganta.
Sem filtro, sem vergonha, sem pedir desculpa.
Fala do amor, da vida, da loucura,
como quem abre a camisa e o peito.

Sampaio é o homem que ousou chorar em voz alta,
rindo da própria dor.
Um desses malucos necessários que ainda me ensinam
que o amor precisa de coragem pra ser verbo.

E sabe onde mais o homem se permite sentir?
No futebol.
Sim, no futebol.

Ali eles se abraçam, se beijam, se empurram, se bagunçam —
choram como crianças
e gritam como quem foi salvo.
No campo, eles se tocam sem culpa.
No campo, eles são emoção pura.

O gol é a brecha da alma masculina.
É o momento em que o corpo diz o que o patriarcado censura.

E eu penso nos meus filhos.
Três.
Homens.
Ontem vi um deles ajoelhado, pedindo a mão da namorada.
Ninguém ensinou isso a ele.
Nem a mim coube essa aula.
Mas aprendeu, observando, que amor é coisa que se vive de peito aberto.

Não precisei dizer:
eles viram.
Sentiram.
Aprenderam que amar é pra ser amado com grandeza,
sem vergonha,
sem medo.

Amar é comemorar.
Como se cada abraço fosse um gol no jogo da vida.

E se for pra dizer que ama,
diga como Sérgio Sampaio:
com voz rouca, sincera, desarmada.
Que amar é mesmo coisa de doido —
mas é a doideira mais bonita que existe.

domingo, 28 de outubro de 2018

Contradição

Sou Contradição às Vezes

(versão simbólica e sensorial por Rosana Camilo)

Sou contradição às vezes.
Noutras, sou convicção.

Chego como quem já vai partir,
mas fico —
fico mais do que devia,
mais do que esperam,
mais do que cabe.

Faço esforços inúteis
pra alcançar o que me fere.
O desejo é faca e flor,
é veneno e reza.
E mesmo quando ele rasga a alma,
ainda assim eu quero ficar.

Porque sou contradição às vezes,
noutras, convicção.

Através do teu silêncio
alimentei meus fantasmas.
Eles cresceram.
Tornaram-se montanhas dentro de mim.
Hoje os atravesso —
um por um,
como quem atravessa um espelho.

E cada silêncio me devolve um rosto,
cada ausência me ensina um nome,
cada sombra me lembra quem sou.

Sou contradição às vezes.
Noutras, sou convicção.
E é nesse vai e vem
que me descubro viva.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Cuia

🕯️ “Dizem que os cachorros nos levarão água na cuia de suas cabeças quando morrermos.”
Frase dita por minha avó)

Naquela tarde, se eu pudesse, em vez de enterrar o cão envenenado, teria enterrado a mim mesma — pra não sentir a dor que se sente quando a humilhação chega ao limite da alma.

Por circunstâncias da vida e do avanço urbano, fui desapropriada da minha antiga casa.
Era simples na construção, mas farta em vida: horta, frutas, peixes e bicho.
Ali meus filhos deram os primeiros passos — livres, como os pés de hortelã rasteiros pelo chão.
Aprenderam a nadar antes de ler, porque o quintal era margem de represa.

O deslocamento foi brutal.
Mudou o espaço, o corpo, o tempo e o ar.
Foram quatro anos até a nova casa ficar pronta — uma casa com luz, mas sem sol; com espaço, mas sem “jeito”.
Havia conforto, mas faltava alma.

Meu terceiro filho nasceu já nesse novo lugar.
E entre o puerpério e os deslocamentos, precisei trabalhar.
Aceitei o emprego de faxineira no mesmo condomínio que agora abrigava os novos retirantes — tão perdidos e desalojados quanto eu.

Ali, suportei misérias inimagináveis em troca de um salário mínimo.
Por mais que eu limpasse — com cloro, desinfetante tutti-frutti, talco, violeta, jasmim, eucalipto — o cheiro da indecência não saía.
Ficava impregnado embaixo das escadas, como cicatriz de sujeira moral.

As pessoas ainda não acostumadas à nova vida começaram a fazer suas necessidades ali mesmo, nas sombras dos prédios.
Com o tempo, aprendi a reconhecer o autor da bosta.
Sim, quando se especializa nisso, a merda vira íntima.
Dá pra diferenciar a de criança, de adulto, de cachorro e até de bêbado.
Os bêbados, esses, são sinceros: cagam onde dá, mas com uma dignidade estranha.

Quando descobri quem eram, fui até eles.
A pouca vergonha cessava por uns dias, mas voltava — às vezes líquida, às vezes misturada com raiva e urina.

Mas nada disso — nem a sujeira, nem o cheiro, nem a humilhação — me preparou pro dia em que o cão foi envenenado.

Muitos haviam abandonado seus bichos ao mudar pro condomínio dos Retirantes Confusos.
Quem não tinha escrúpulo com as próprias fezes, imagina com um cachorro.
Envenenaram o bicho e o deixaram morrer encostado no muro frio, do lado de dentro — pra que todos pudessem ver a barbaridade que haviam se tornado.

Ninguém fez nada.
Só quando o fedor ficou insuportável é que Dona Matilde, a síndica, me chamou.
Eu, “a responsável pela limpeza”.
A especialista em merda.

Mas eu não descobri quem envenenou o cão.
E Dona Matilde, dona de tudo, ordenou:

> “Enterre o bicho.”



E lá fui eu — cinquenta quilos de carne, ossos e ódio — carregar o cão, a pá, a enxada e o peso do mundo.
Cavei além do muro.
Três ou quatro me olhavam de longe, gozando o espetáculo silencioso da minha humilhação.

Cavei até o cansaço.
O sol a pino, o corpo pedindo trégua, o buraco pequeno demais pra tanta dor.

E então gritei:

> “Chega! Não consigo mais cavar!”



A plateia, embriagada, riu.
E Dona Matilde decretou:

> “Pega uns sacos de lixo e joga fora.”



E eu obedeci.
Com as mãos trêmulas e o peito rasgado, coloquei o cão nos sacos, amarrei, levei até a lixeira.

E todos voltaram pras suas vidas.
Menos eu.

Naquele dia, uma parte de mim foi junto com o cão pro lixo."