segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O salto que quebrou o silêncio

 Texto de 27/06/2025


Era só um encontro.

Três meses de silêncio guardados como quem segura o ar por tempo demais.

Preparei a roupa, o perfume, a coragem.

Cada detalhe era um cuidado — não comigo, com o impacto.

Eu queria ser lembrança marcante, não mais ausência esquecida.


A bota, alta, firme, bonita.

Eu estava pronta.

Ou achei que estivesse.


Na calçada molhada da ansiedade, o salto quebrou.

Estalou seco, como um aviso.

O chão me chamou de volta:

"Não vá tentando ser mais do que é.

Vai assim, como você é.

Com medo, com saudade, com o pé no chão."


Fiquei parada.

Rindo da tragédia elegante.

Não era mais sobre ele.

Era sobre mim.


Talvez o salto tenha quebrado pra eu entender que,

entre o orgulho e o encontro,

quem decide sou eu —

mesmo que torta, mesmo que sem salto,

mas inteira.

Por um fio

 (escrito na pandemia)


Um dia acordei e me dei conta de que me tornei íntima dessa casa.


Cada pequena parte, cada parede, cada canto revelam o que eu mais temia:

me tornar parte da mobília.


É uma intimidade constrangedora.


Toda coisa fora do lugar — o rejunte pedindo cloro, a gordura grudada na poeira das partes altas da cozinha —

tudo conversa comigo, tudo pede socorro.


Acalmo os ânimos dando conta do que é possível fazer.


As roupas que estrangulei no armário riem de mim,

e eu rio de volta, sem muita esperança de ajeitar.


Tenho sapatos novos — dois pares.

Um deles uso em casa, na falta de onde ir.

Só pra enganar a parte lógica e racional,

faço charme pros meus pés ficarem enganados,

felizes de sentir que ainda podem caminhar vestidos,

sem ser com as chinelas e meias

com as quais desenvolveram uma relação profunda.


As plantas são excelentes quando se trata de expressar o desejo.

Com elas, a convivência é simples: dizem o que querem —

sol, sombra, vento, água —

e quando eu não dou conta de entender,

elas simplesmente se vão.

Sem o menor ressentimento.

Nem delas, nem meu.


Sinto medos que nunca senti antes.

Medos estranhos,

coisas sem jeito de explicar.


Tudo por um fio.


Maldita a palavra mal dita.

Na hora e no lugar errados.


Tentativas, erros, acertos, desistências, persistências —

tudo por um fio.


Trabalho on-line, diversão on-line, necessidades on-line,

reuniões on-line, aniversário on-line —

tudo on-line,

tudo por uma linha,

tudo por um fio.


Haja saúde mental, saúde emocional, saúde física —

haja saúde!


Tantos finais de semana passei bebendo na solitude,

convicta de que era redução de danos

diante de tanto buraco existencial.


Bobagem.


O vazio não se enche nunca.

Ele cresce, torna-se parte da mobília,

impregna-se nas paredes

com a força do pó com gordura.


As notícias chegam e trazem tristezas amarradas:

sangue de pobre escorrendo,

povos expulsos de suas terras,

mulheres, trabalhadoras, crianças

sofrendo com a violência do Estado.


Tudo muito brutal.

Tudo violento.

Tudo por um fio.


É um país inteiro sangrando.


É só povo segurando na mão de povo,

nas ondas de solidariedade

que também vão se esgotando.


Como tudo se esgota, por aqui,

na minha subjetividade.


A banalização do mal.

A naturalização da dor.

Do sofrimento.

Da morte.


Tudo por um fio —

numa dimens

ão que assusta

de tão natural.


Como se tudo na vida

tivesse se tornado

parte da mobília.


domingo, 9 de novembro de 2025

Desejo, Substância da Subversão


E afinal, o que é o desejo?

Essa instituição invisível onde ninguém entra sem se perder.
Esse vazio que também é presença.

Desejo é o que falta —
mas é também o que pulsa, o que acende,
o que se mostra e se esconde no mesmo gesto.

É metáfora e matéria,
é quase toque, quase verbo, quase vida.

E quando o alcançamos,
ele já é outro.
Muda de forma, muda de cor,
escapa pelas frestas do real.

O real é o contrário do desejo.
O desejo é chama;
o real, cinza.

No instante em que o desejo se concretiza,
ele se desmancha —
vira outra substância,
menos brilhante,
menos febril.
Frágil, quase dócil,
como se perdesse a pele que o mantinha vivo.

Desejo é o que não cabe.
É o resto, a sobra,
o que ficou pela metade,
o que quase foi.

É o motor secreto das coisas,
a engrenagem que gira mesmo no escuro,
o fio que nos puxa pra frente,
mesmo quando tudo parece imóvel.

Você ama tudo que tem?
Ou ainda busca o que falta?

Talvez seja isso:
Desejo é o “algo mais” —
a eternidade do inacabado,
a fome que nos sustenta,
a falta que nos move.

domingo, 6 de abril de 2025

Prece de Luxúria


Desejo tua presença.

Não é só querer —

é reza,

é febre,

é carne em oração.


Teu cheiro me doma,

suave tempestade,

acalma o caos em mim

como se soubesse o caminho

dos meus labirintos.


Teu gosto —

quente,

denso,

selvagem.

Gruda na minha boca,

fica…

marca.


E teu suor,

ah, teu suor —

é vinho pra minha sede,

é sal pra minha fome,

é tua essência

derretida na minha língua.


Quero teu corpo inteiro.

Mapa sagrado,

bússola invertida.

Percorrer cada centímetro

como quem descobre

um novo mundo

com a ponta dos dedos.


Sonho o possível.

Mas é no impossível

que me perco.

É no impossível

que te vivo.

É no impossível

que somos.


Juntos.

Incontornáveis.

Latinos.

Sangue em ebulição.

Pele, pulsação.

Nós.

Nosso.

Infinito.

Saudade em verso


Tem gosto amargo,
tom de despedida,
essa saudade que mora
entre o peito e a razão.

teu nome ressoa —
é sino, é pulsação.

Nos achamos,
e em nós nos perdemos:
mesmo passo,

Fomos desejo e medo,
nos doemos,

Sonhei teu riso
em dias tão banais —
no sol, na chuva,
no frio a chegar.

Mas restam planos soltos,
nunca mais.
E a dor de não poder
te despertar.

Tua pele em mim,
e o impossível...
ainda é meu encanto.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Shampoo é Privilégio e Deus Morreu pra Nós!

Às vezes eu choro à noite,
deitada na cama,
olhando o teto como quem procura uma fresta.

Choro pelo peso do dia que já foi,
e pelo outro — que ainda vem.
As batalhas nunca se repetem,
mas se revezam:
uma fere o corpo,
outra a fé,
outra o que ainda resta da esperança.

carrinho cheio de trampos,
dois painéis, uma mesa,
a criança, os brinquedos,
e a coragem que sobrou do ontem.

A porta é larga,
mas o ferro no meio da entrada me diz que não é pra todo mundo passar.
O carrinho enrosca,
a mãe fica dentro,
a criança fora,
tentando empurrar o mundo pra dentro do ônibus.

Quando finalmente consigo entrar,
grito, sem medo:

> “isso é viver uma vida sem privilégio!”



A vida também enrosca nos ferros invisíveis:
dos favores, das chances que nunca chegam pra nós.

Mas a gente passa.
A gente passa na marra,
na força,
na brecha.
Mesmo com o corpo cansado,
mesmo com a alma rasgada,
a gente passa.

E segue.

A rotina é um moinho:
moe tempo, sonho e paciência.
Nem o mercado é o mesmo.
Cem reais viram três sacolinhas minguadas —
duas de ilusão, uma de mistura.
O luxo agora é sabonete.
Shampoo virou símbolo de classe.

E me lembro de um dia no metrô,
um crente veio me salvar com as palavras dele.
Dizia que se eu pagasse o dízimo,
Deus abriria minhas portas.

Na cabeça dele, eu era vagabunda —
por trabalhar com arte,
por viver do que é feito à mão,
por acreditar em beleza mesmo quando o mundo fede a miséria.

Falou, falou,
até dizer que Deus era como porta de metrô:
abre pra uns,
fecha pra outros.

Pois é.
Parece que o Deus do metrô também não abre o do trólebus.
E o Uber?
Nem sempre vem.

O Deus que abre portas todas
só atende aos privilegiados.

Mas eu não ando só.

aquele que abre os caminhos de quem anda a pé,
que conhece os becos e as brechas,
que entende a fome e o atraso,
que me guia pelos vãos do impossível.

Laroyê, Exu.
Que me ensina a atravessar,
mesmo quando o ferro aperta,
mesmo quando a porta fecha,
mesmo quando o mundo esquece.

Sobre Sérgio Sampaio, Chico, Zezé e Futebol...

Vamos lá.
Vejo pouca diferença entre Chico Buarque e Zezé Di Camargo e Luciano quando falam de amor.
É sério.
Os dois — cada um do seu lado do palco — cantam o mesmo enredo:
a dor, a falta, o vazio deixado pelo amor.

O que muda é o timbre, o cenário.
Mas quase sempre quem fala, mesmo quando é homem,
fala com voz de mulher.

É ela que sofre.
É ela que pede.
É ela que sente demais.

E eles — mesmo sendo poetas, compositores, cronistas do coração —
parecem apenas emprestar a boca pra essa voz feminina que a cultura autoriza sentir.

Mas me diga:
quantas vezes você ouviu um homem cantar, sem medo,
“meu peito está dilacerado”?
Poucas, né?
Porque o patriarcado até deixa o homem sentir —
mas não o deixa dizer.

Aí vem Sérgio Sampaio.
Louco, intenso, autêntico.
E fala o amor com a própria garganta.
Sem filtro, sem vergonha, sem pedir desculpa.
Fala do amor, da vida, da loucura,
como quem abre a camisa e o peito.

Sampaio é o homem que ousou chorar em voz alta,
rindo da própria dor.
Um desses malucos necessários que ainda me ensinam
que o amor precisa de coragem pra ser verbo.

E sabe onde mais o homem se permite sentir?
No futebol.
Sim, no futebol.

Ali eles se abraçam, se beijam, se empurram, se bagunçam —
choram como crianças
e gritam como quem foi salvo.
No campo, eles se tocam sem culpa.
No campo, eles são emoção pura.

O gol é a brecha da alma masculina.
É o momento em que o corpo diz o que o patriarcado censura.

E eu penso nos meus filhos.
Três.
Homens.
Ontem vi um deles ajoelhado, pedindo a mão da namorada.
Ninguém ensinou isso a ele.
Nem a mim coube essa aula.
Mas aprendeu, observando, que amor é coisa que se vive de peito aberto.

Não precisei dizer:
eles viram.
Sentiram.
Aprenderam que amar é pra ser amado com grandeza,
sem vergonha,
sem medo.

Amar é comemorar.
Como se cada abraço fosse um gol no jogo da vida.

E se for pra dizer que ama,
diga como Sérgio Sampaio:
com voz rouca, sincera, desarmada.
Que amar é mesmo coisa de doido —
mas é a doideira mais bonita que existe.