terça-feira, 11 de novembro de 2025

O quarto dos fundos

Havia um quarto nos fundos.

De chão gasto, de silêncio antigo,

onde eu limpava vestígios de outros mundos.

Entre baldes, panos e memórias,

eu recolhia restos de histórias que não eram minhas —

mas que me atravessavam como se fossem.


Dessa vez, o destino pregou uma peça:

eu ia atender meu supervisor.

Ele, o psicanalista.

Eu, a empregada doméstica.

Mas o tempo riu da hierarquia

e trocou as cadeiras.

Ele me esperava,

e eu me atrasava uma hora inteira —

como quem ainda precisa de tempo pra nascer.


Quando cheguei, o quarto estava cheio.

Gente do CAPS, olhares, palpites,

vozes falando todas ao mesmo tempo

sobre o que é o cuidado.

O sagrado da escuta virou confusão.

A alma, interrompida.


Então algo em mim se ergueu.

Respirei fundo, e pedi que todos saíssem.

Um a um, foram deixando o espaço.

O último olhar fechou a porta.

E ficou o silêncio.


Ali, compreendi.

Não era mais a mulher dos fundos.

Era a terapeuta que sabe o peso e o valor do seu tempo.

Que reconhece a força do seu lugar de fala.

Que sustenta o vazio,

o fértil, o necessário.


A sessão não era com ele.

Era comigo.

O inconsciente se apresentou —

e eu, enfim,

me sentei à minha própria poltrona.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

O salto que quebrou o silêncio

 Texto de 27/06/2025


Era só um encontro.

Três meses de silêncio guardados como quem segura o ar por tempo demais.

Preparei a roupa, o perfume, a coragem.

Cada detalhe era um cuidado — não comigo, com o impacto.

Eu queria ser lembrança marcante, não mais ausência esquecida.


A bota, alta, firme, bonita.

Eu estava pronta.

Ou achei que estivesse.


Na calçada molhada da ansiedade, o salto quebrou.

Estalou seco, como um aviso.

O chão me chamou de volta:

"Não vá tentando ser mais do que é.

Vai assim, como você é.

Com medo, com saudade, com o pé no chão."


Fiquei parada.

Rindo da tragédia elegante.

Não era mais sobre ele.

Era sobre mim.


Talvez o salto tenha quebrado pra eu entender que,

entre o orgulho e o encontro,

quem decide sou eu —

mesmo que torta, mesmo que sem salto,

mas inteira.

Por um fio

 (escrito na pandemia)


Um dia acordei e me dei conta de que me tornei íntima dessa casa.


Cada pequena parte, cada parede, cada canto revelam o que eu mais temia:

me tornar parte da mobília.


É uma intimidade constrangedora.


Toda coisa fora do lugar — o rejunte pedindo cloro, a gordura grudada na poeira das partes altas da cozinha —

tudo conversa comigo, tudo pede socorro.


Acalmo os ânimos dando conta do que é possível fazer.


As roupas que estrangulei no armário riem de mim,

e eu rio de volta, sem muita esperança de ajeitar.


Tenho sapatos novos — dois pares.

Um deles uso em casa, na falta de onde ir.

Só pra enganar a parte lógica e racional,

faço charme pros meus pés ficarem enganados,

felizes de sentir que ainda podem caminhar vestidos,

sem ser com as chinelas e meias

com as quais desenvolveram uma relação profunda.


As plantas são excelentes quando se trata de expressar o desejo.

Com elas, a convivência é simples: dizem o que querem —

sol, sombra, vento, água —

e quando eu não dou conta de entender,

elas simplesmente se vão.

Sem o menor ressentimento.

Nem delas, nem meu.


Sinto medos que nunca senti antes.

Medos estranhos,

coisas sem jeito de explicar.


Tudo por um fio.


Maldita a palavra mal dita.

Na hora e no lugar errados.


Tentativas, erros, acertos, desistências, persistências —

tudo por um fio.


Trabalho on-line, diversão on-line, necessidades on-line,

reuniões on-line, aniversário on-line —

tudo on-line,

tudo por uma linha,

tudo por um fio.


Haja saúde mental, saúde emocional, saúde física —

haja saúde!


Tantos finais de semana passei bebendo na solitude,

convicta de que era redução de danos

diante de tanto buraco existencial.


Bobagem.


O vazio não se enche nunca.

Ele cresce, torna-se parte da mobília,

impregna-se nas paredes

com a força do pó com gordura.


As notícias chegam e trazem tristezas amarradas:

sangue de pobre escorrendo,

povos expulsos de suas terras,

mulheres, trabalhadoras, crianças

sofrendo com a violência do Estado.


Tudo muito brutal.

Tudo violento.

Tudo por um fio.


É um país inteiro sangrando.


É só povo segurando na mão de povo,

nas ondas de solidariedade

que também vão se esgotando.


Como tudo se esgota, por aqui,

na minha subjetividade.


A banalização do mal.

A naturalização da dor.

Do sofrimento.

Da morte.


Tudo por um fio —

numa dimens

ão que assusta

de tão natural.


Como se tudo na vida

tivesse se tornado

parte da mobília.


domingo, 9 de novembro de 2025

Desejo, Substância da Subversão


E afinal, o que é o desejo?

Essa instituição invisível onde ninguém entra sem se perder.
Esse vazio que também é presença.

Desejo é o que falta —
mas é também o que pulsa, o que acende,
o que se mostra e se esconde no mesmo gesto.

É metáfora e matéria,
é quase toque, quase verbo, quase vida.

E quando o alcançamos,
ele já é outro.
Muda de forma, muda de cor,
escapa pelas frestas do real.

O real é o contrário do desejo.
O desejo é chama;
o real, cinza.

No instante em que o desejo se concretiza,
ele se desmancha —
vira outra substância,
menos brilhante,
menos febril.
Frágil, quase dócil,
como se perdesse a pele que o mantinha vivo.

Desejo é o que não cabe.
É o resto, a sobra,
o que ficou pela metade,
o que quase foi.

É o motor secreto das coisas,
a engrenagem que gira mesmo no escuro,
o fio que nos puxa pra frente,
mesmo quando tudo parece imóvel.

Você ama tudo que tem?
Ou ainda busca o que falta?

Talvez seja isso:
Desejo é o “algo mais” —
a eternidade do inacabado,
a fome que nos sustenta,
a falta que nos move.

domingo, 6 de abril de 2025

Prece de Luxúria


Desejo tua presença.

Não é só querer —

é reza,

é febre,

é carne em oração.


Teu cheiro me doma,

suave tempestade,

acalma o caos em mim

como se soubesse o caminho

dos meus labirintos.


Teu gosto —

quente,

denso,

selvagem.

Gruda na minha boca,

fica…

marca.


E teu suor,

ah, teu suor —

é vinho pra minha sede,

é sal pra minha fome,

é tua essência

derretida na minha língua.


Quero teu corpo inteiro.

Mapa sagrado,

bússola invertida.

Percorrer cada centímetro

como quem descobre

um novo mundo

com a ponta dos dedos.


Sonho o possível.

Mas é no impossível

que me perco.

É no impossível

que te vivo.

É no impossível

que somos.


Juntos.

Incontornáveis.

Latinos.

Sangue em ebulição.

Pele, pulsação.

Nós.

Nosso.

Infinito.

Saudade em verso


Tem gosto amargo,
tom de despedida,
essa saudade que mora
entre o peito e a razão.

teu nome ressoa —
é sino, é pulsação.

Nos achamos,
e em nós nos perdemos:
mesmo passo,

Fomos desejo e medo,
nos doemos,

Sonhei teu riso
em dias tão banais —
no sol, na chuva,
no frio a chegar.

Mas restam planos soltos,
nunca mais.
E a dor de não poder
te despertar.

Tua pele em mim,
e o impossível...
ainda é meu encanto.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Shampoo é Privilégio e Deus Morreu pra Nós!

Às vezes eu choro à noite,
deitada na cama,
olhando o teto como quem procura uma fresta.

Choro pelo peso do dia que já foi,
e pelo outro — que ainda vem.
As batalhas nunca se repetem,
mas se revezam:
uma fere o corpo,
outra a fé,
outra o que ainda resta da esperança.

carrinho cheio de trampos,
dois painéis, uma mesa,
a criança, os brinquedos,
e a coragem que sobrou do ontem.

A porta é larga,
mas o ferro no meio da entrada me diz que não é pra todo mundo passar.
O carrinho enrosca,
a mãe fica dentro,
a criança fora,
tentando empurrar o mundo pra dentro do ônibus.

Quando finalmente consigo entrar,
grito, sem medo:

> “isso é viver uma vida sem privilégio!”



A vida também enrosca nos ferros invisíveis:
dos favores, das chances que nunca chegam pra nós.

Mas a gente passa.
A gente passa na marra,
na força,
na brecha.
Mesmo com o corpo cansado,
mesmo com a alma rasgada,
a gente passa.

E segue.

A rotina é um moinho:
moe tempo, sonho e paciência.
Nem o mercado é o mesmo.
Cem reais viram três sacolinhas minguadas —
duas de ilusão, uma de mistura.
O luxo agora é sabonete.
Shampoo virou símbolo de classe.

E me lembro de um dia no metrô,
um crente veio me salvar com as palavras dele.
Dizia que se eu pagasse o dízimo,
Deus abriria minhas portas.

Na cabeça dele, eu era vagabunda —
por trabalhar com arte,
por viver do que é feito à mão,
por acreditar em beleza mesmo quando o mundo fede a miséria.

Falou, falou,
até dizer que Deus era como porta de metrô:
abre pra uns,
fecha pra outros.

Pois é.
Parece que o Deus do metrô também não abre o do trólebus.
E o Uber?
Nem sempre vem.

O Deus que abre portas todas
só atende aos privilegiados.

Mas eu não ando só.

aquele que abre os caminhos de quem anda a pé,
que conhece os becos e as brechas,
que entende a fome e o atraso,
que me guia pelos vãos do impossível.

Laroyê, Exu.
Que me ensina a atravessar,
mesmo quando o ferro aperta,
mesmo quando a porta fecha,
mesmo quando o mundo esquece.

Sobre Sérgio Sampaio, Chico, Zezé e Futebol...

Vamos lá.
Vejo pouca diferença entre Chico Buarque e Zezé Di Camargo e Luciano quando falam de amor.
É sério.
Os dois — cada um do seu lado do palco — cantam o mesmo enredo:
a dor, a falta, o vazio deixado pelo amor.

O que muda é o timbre, o cenário.
Mas quase sempre quem fala, mesmo quando é homem,
fala com voz de mulher.

É ela que sofre.
É ela que pede.
É ela que sente demais.

E eles — mesmo sendo poetas, compositores, cronistas do coração —
parecem apenas emprestar a boca pra essa voz feminina que a cultura autoriza sentir.

Mas me diga:
quantas vezes você ouviu um homem cantar, sem medo,
“meu peito está dilacerado”?
Poucas, né?
Porque o patriarcado até deixa o homem sentir —
mas não o deixa dizer.

Aí vem Sérgio Sampaio.
Louco, intenso, autêntico.
E fala o amor com a própria garganta.
Sem filtro, sem vergonha, sem pedir desculpa.
Fala do amor, da vida, da loucura,
como quem abre a camisa e o peito.

Sampaio é o homem que ousou chorar em voz alta,
rindo da própria dor.
Um desses malucos necessários que ainda me ensinam
que o amor precisa de coragem pra ser verbo.

E sabe onde mais o homem se permite sentir?
No futebol.
Sim, no futebol.

Ali eles se abraçam, se beijam, se empurram, se bagunçam —
choram como crianças
e gritam como quem foi salvo.
No campo, eles se tocam sem culpa.
No campo, eles são emoção pura.

O gol é a brecha da alma masculina.
É o momento em que o corpo diz o que o patriarcado censura.

E eu penso nos meus filhos.
Três.
Homens.
Ontem vi um deles ajoelhado, pedindo a mão da namorada.
Ninguém ensinou isso a ele.
Nem a mim coube essa aula.
Mas aprendeu, observando, que amor é coisa que se vive de peito aberto.

Não precisei dizer:
eles viram.
Sentiram.
Aprenderam que amar é pra ser amado com grandeza,
sem vergonha,
sem medo.

Amar é comemorar.
Como se cada abraço fosse um gol no jogo da vida.

E se for pra dizer que ama,
diga como Sérgio Sampaio:
com voz rouca, sincera, desarmada.
Que amar é mesmo coisa de doido —
mas é a doideira mais bonita que existe.

domingo, 28 de outubro de 2018

Contradição

Sou Contradição às Vezes

(versão simbólica e sensorial por Rosana Camilo)

Sou contradição às vezes.
Noutras, sou convicção.

Chego como quem já vai partir,
mas fico —
fico mais do que devia,
mais do que esperam,
mais do que cabe.

Faço esforços inúteis
pra alcançar o que me fere.
O desejo é faca e flor,
é veneno e reza.
E mesmo quando ele rasga a alma,
ainda assim eu quero ficar.

Porque sou contradição às vezes,
noutras, convicção.

Através do teu silêncio
alimentei meus fantasmas.
Eles cresceram.
Tornaram-se montanhas dentro de mim.
Hoje os atravesso —
um por um,
como quem atravessa um espelho.

E cada silêncio me devolve um rosto,
cada ausência me ensina um nome,
cada sombra me lembra quem sou.

Sou contradição às vezes.
Noutras, sou convicção.
E é nesse vai e vem
que me descubro viva.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Cuia

🕯️ “Dizem que os cachorros nos levarão água na cuia de suas cabeças quando morrermos.”
Frase dita por minha avó)

Naquela tarde, se eu pudesse, em vez de enterrar o cão envenenado, teria enterrado a mim mesma — pra não sentir a dor que se sente quando a humilhação chega ao limite da alma.

Por circunstâncias da vida e do avanço urbano, fui desapropriada da minha antiga casa.
Era simples na construção, mas farta em vida: horta, frutas, peixes e bicho.
Ali meus filhos deram os primeiros passos — livres, como os pés de hortelã rasteiros pelo chão.
Aprenderam a nadar antes de ler, porque o quintal era margem de represa.

O deslocamento foi brutal.
Mudou o espaço, o corpo, o tempo e o ar.
Foram quatro anos até a nova casa ficar pronta — uma casa com luz, mas sem sol; com espaço, mas sem “jeito”.
Havia conforto, mas faltava alma.

Meu terceiro filho nasceu já nesse novo lugar.
E entre o puerpério e os deslocamentos, precisei trabalhar.
Aceitei o emprego de faxineira no mesmo condomínio que agora abrigava os novos retirantes — tão perdidos e desalojados quanto eu.

Ali, suportei misérias inimagináveis em troca de um salário mínimo.
Por mais que eu limpasse — com cloro, desinfetante tutti-frutti, talco, violeta, jasmim, eucalipto — o cheiro da indecência não saía.
Ficava impregnado embaixo das escadas, como cicatriz de sujeira moral.

As pessoas ainda não acostumadas à nova vida começaram a fazer suas necessidades ali mesmo, nas sombras dos prédios.
Com o tempo, aprendi a reconhecer o autor da bosta.
Sim, quando se especializa nisso, a merda vira íntima.
Dá pra diferenciar a de criança, de adulto, de cachorro e até de bêbado.
Os bêbados, esses, são sinceros: cagam onde dá, mas com uma dignidade estranha.

Quando descobri quem eram, fui até eles.
A pouca vergonha cessava por uns dias, mas voltava — às vezes líquida, às vezes misturada com raiva e urina.

Mas nada disso — nem a sujeira, nem o cheiro, nem a humilhação — me preparou pro dia em que o cão foi envenenado.

Muitos haviam abandonado seus bichos ao mudar pro condomínio dos Retirantes Confusos.
Quem não tinha escrúpulo com as próprias fezes, imagina com um cachorro.
Envenenaram o bicho e o deixaram morrer encostado no muro frio, do lado de dentro — pra que todos pudessem ver a barbaridade que haviam se tornado.

Ninguém fez nada.
Só quando o fedor ficou insuportável é que Dona Matilde, a síndica, me chamou.
Eu, “a responsável pela limpeza”.
A especialista em merda.

Mas eu não descobri quem envenenou o cão.
E Dona Matilde, dona de tudo, ordenou:

> “Enterre o bicho.”



E lá fui eu — cinquenta quilos de carne, ossos e ódio — carregar o cão, a pá, a enxada e o peso do mundo.
Cavei além do muro.
Três ou quatro me olhavam de longe, gozando o espetáculo silencioso da minha humilhação.

Cavei até o cansaço.
O sol a pino, o corpo pedindo trégua, o buraco pequeno demais pra tanta dor.

E então gritei:

> “Chega! Não consigo mais cavar!”



A plateia, embriagada, riu.
E Dona Matilde decretou:

> “Pega uns sacos de lixo e joga fora.”



E eu obedeci.
Com as mãos trêmulas e o peito rasgado, coloquei o cão nos sacos, amarrei, levei até a lixeira.

E todos voltaram pras suas vidas.
Menos eu.

Naquele dia, uma parte de mim foi junto com o cão pro lixo."

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poeminha à Lacan

Escrever é delírio.
Tantos poetas já o disseram.

Deliro porque preciso suportar a vida.

A palavra é peça de xadrez no jogo da poesia:
ora representa o imaginário,
ora o simbólico.

Com ou sem o nome-do-pai,
elas se movem, se deslocam,
ou simplesmente se condensam —
feito metáfora e metonímia.

No real da vida,
só o desejo insustentável habita.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Canto da sereia

Canto pra você
como quem lança rede no silêncio.
Canto de sereia —
em busca de um peito seguro
onde o som possa descansar.

Teu incenso desperta minha flor,
abre o corpo,
fica preso nas narinas
toda vez que ascendo.

Toma meu sumo,
meu suco de corpo,
minha fruta madura.

Come a Lótus —
úmida, orvalhada,
sagrada como o capim
que nasce no abandono.

Não sou santa.
Sou teia.
Sou veia.
E te devoro.

Intimidade não é língua.
É linguagem.
É metáfora.

E agora, me diz:
o que fará com o prato?
Vai lamber o resto
ou jogar o verso fora?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sobre andar de moto (de carona)

Andar de moto de carona não é nada fácil.
Ora o piloto esquece que não está sozinho,
ora é a gente que se preocupa demais com o que vem pela frente.

Nos primeiros dias, foi cômico.
Em cima da 125, eu só pensava em não bater em nada.
Viajava o caminho inteiro torta e dura —
cabeça pra fora do eixo da moto,
tentando espiar o que vinha pela frente,
corpo torto de medo de me ajeitar e causar um acidente.

Lá ia eu:
troncha, com câimbras nas pernas,
bunda fora do banco
e cabeça quase fora da moto.

Hoje, mais acostumada, às vezes ainda acontece.
Se carrego uma mochila pesada e o piloto passa com tudo pela lombada,
tudo sai do lugar:
a mochila puxa pra um lado,
a bunda sai do centro,
as pernas travam.
Só a cabeça continua firme —
porque o medo, esse, nunca sai do lugar.

Ou você aprende a confiar no piloto,
ou vai de carona parecendo um saco de batatas com olhos arregalados.

Claro, há sempre a opção de pilotar a própria moto.
Mas, definitivamente, não é pra mim.

E assim seguimos —
sempre em busca do equilíbrio,
confiando no piloto
quando não é a gente quem pilota.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NaCL(sal)

Há uma lenda antiga — ou talvez só uma sabedoria anônima — que diz que só conhecemos de verdade quem caminha ao nosso lado depois de dividir com essa pessoa os quilos de sal da vida.

Um dia, durante uma DR, cobrei do meu companheiro a falta de envolvimento com as coisas da casa.
Entre frases efusivas e algumas contundentes, disparei:

> “Você sabe se temos óleo em casa? Açúcar? Sal?
Sabe quanto temos de cada coisa?”



E fui seguindo, como quem mede amor em colheres e panelas.

Santiago, meu filho, ouvia tudo com atenção.
Tinha pouco mais de um ano, mas já entendia o essencial da conversa: a importância do sal.

Alguns dias depois, o pai o repreendeu por alguma traquinagem.
E ele, firme e indignado, devolveu sem pestanejar:

> “Pai, você compra sal?
Você nem compra sal e quer brigar comigo?”



Pois é.
O sal é mesmo o que sustenta as relações.
Dá gosto, dá limite, dá corpo.
Na vida familiar, sobretudo nas funções de mãe e pai,
é ele que impede o afeto de azedar.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Voa...mulher!


O mar é assim —
um leva e traz constante.

Enquanto isso,
minha pele segue seca,
sedenta pelo teu olhar
— orvalhado, fértil.

A esperança embrutece.
Sente a fome-desejo deste corpo
que anseia por teus olhos
cheios de calor.

A bruteza risca a pele,
sulca os dias,
à espera dos beijos prometidos
que talvez nunca venham
molhar, matar, ou acalmar
essa angústia de amor
que ainda insiste.

Teu sorriso
é uma das poucas lembranças
que não secaram.
Mas, aos poucos,
também se esvai —
seca no imaginário,
dá novas formas
ao teu conteúdo.

Vai, mulher...
voa, beija-flor.

Não esperes mais por beijos
que não trazem amor.

Vai, mulher...
voa, beija-flor.
Não deixes o tempo
secar teus afetos.
Voa agora —
há outras flores
te esperando.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Psicopatologias

O que antes era graça
já não seduz mais.

Como cantou Nando Reis em Cegos do Castelo:

> “Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu.”



A paranoia —
que antes fazia rir, dançar,
ouvir Raul no último volume —
hoje não diverte.
Assusta.
No real da vida,
ela tem dentes.

Os delírios,
que tanto inspiraram a arte de escrever,
pela liberdade e pela febre da criação,
hoje são apenas sintoma.

A alucinação,
que um dia foi prazer —
doce, lúdica, colorida —
agora acovarda como fantasma de infância.
A mesma covardia de quem, criança,
se escondia sob o cobertor
pra não ver o que não era real.

Quebrada,
sem fraturas expostas —
fraturas mentais.
Elas doem,
latejam,
sangram,
sufocam.

Camus talvez tenha se aproximado
da palavra certa pra essa dor.
Em vez de depressão,
chamou de desespero.

E fez do suicídio
a questão filosófica mais urgente da humanidade.
(O Mito de Sísifo).

Freud, por sua vez,
disse que só se chega à análise
por dois caminhos:
o amor ou o trabalho.

Não sei como terminar.
Mas espero que termine bem.

(...)

O que antes era graça,
não encanta mais.

Como cantou Nando Reis em Cegos do Castelo:

> “Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu.”



A paranoia que antes fazia rir
hoje assusta.
O delírio que antes criava
hoje consome.
A alucinação que antes libertava
hoje aprisiona.

Quebrada —
sem fraturas expostas —
as dores agora vivem no corpo.

Doem.
Latejam.
Sufocam.

Camus chamou de desespero.
Freud, talvez, de análise.
Eu, só de vida.
E ainda assim,
espero que termine bem.


Cigano

As areias da praia
trouxeram um cigano pra mim.

Cabelos hirsutos, desarmados —
tanto quanto o coração.

O olhar dele atravessou minhas entranhas.
Fiquei sem jeito.
Mas olhei de volta,
tentando decifrar o que diziam seus olhos.

O som do mar se confundia com sua voz,
e eu, já embriagada de desejo,
me apresentei nua —
sem resistência alguma
ao amor e ao sexo.

Foi uma tarde diferente.
Saí apenas pra caminhar,
tomar uma cerveja,
e o acaso — ou o destino —
me trouxe esse moço.

Bonito feito cavalo de raça,
riso fácil, conversa boa,
repleto de vida e vontade
pra me transbordar da rotina.

Fui sem medo.
Confiei no olhar, no sorriso
que pareciam dizer:

> “Não foi acaso, minha pequena.”



Os gestos dele —
entre carinho e amizade —
me encantaram.

Saí sem saber se fora sonho ou realidade.
A consciência latejava oxitocina e feromônio —
mistura exata pra deixar qualquer alma em êxtase.

O mago da palavra fez feliz a fada urbana.
E a história continua,
mesmo depois de uma semana.

Não vou contar o tempo,
nem os encontros.
Fico cá, pensando no tal moço —
cigano do amor,
sem paradeiro,
que vai beijando flor por flor.

Enquanto ele não chama,
preparo minha flor.
Pra quando ele vier beijar,
que venha —
cheio de amor.


terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sobre a copa IIDidier Dogbá,um nome é muita coisa


Ontem, durante o jogo Japão x Costa do Marfim, aconteceu o inesperado.
O Japão dominava a partida e vencia por 1 a 0.
A Costa atacava sem parar — mas nada.
A força e a resistência estavam lá, visíveis em músculos esculpidos com precisão quase divina.
Mas não bastava.
Não bastava pra virar o jogo.

E então aconteceu o milagre.
Não foi tático, foi simbólico.

A virada começou quando um nome foi dito:
Didier Drogba.

O nome entrou em campo — e o jogo mudou de esfera.
Parecia que a realidade, de repente, obedecia ao desejo.

A torcida, antes tímida, virou a casaca sem culpa.
Gritava, delirava.
Não torcia mais só por um time —
torcia pelo mito.

A postura dos jogadores mudou também:
cabeças erguidas, passes firmes, olhos atentos ao companheiro.
O campo, antes espaço de força, virou território de fé.

Ontem, Drogba não foi convocado.
Foi evocado.

Como quando evocamos uma palavra na esperança de que o nosso desejo se realize.

E foi.

Enquanto via o jogo, lembrei de uma psicanalista que um dia me disse:

> “Um nome nunca é só isso.
Um nome já é muita coisa.”



Se é!

Durante a copa do mundo I

Na última quinta, adiantamos o ensaio da banda, aproveitando o feriado pra deixar o domingo livre.
Aqui em casa, todos tinham saído: os filhos mais velhos foram pra casa do pai, o companheiro aproveitou pra fazer hora extra, e eu fui trabalhar também — porque artista, sim, trabalha pra burro.
Fui com meu pequeno de quatro anos.

Na ida, pegamos o metrô — a linha vermelha — lotado de torcedores ingleses.
Felizes, barulhentos, batendo no teto do vagão, bebendo, gritando, naquela algazarra alegre de quem faz da torcida um carnaval.

Meu pequeno me olhava, intrigado.
— “Mãe, por que eles falam desse jeito?”
Expliquei:
— “É a língua deles. Eles falam inglês, moram em outro país.”
Um dos estrangeiros percebeu a curiosidade do menino, sorriu e passou a mão com carinho em seus cabelos.

Descemos em Santa Cecília.
Ensaio feito, tudo lindo.

Na volta, cruzamos com a torcida do Uruguai — ainda mais feliz que a da Inglaterra.
Voltavam do jogo com o peito estufado de vitória.
Usavam perucas azuis e brancas, bandeiras enroladas no corpo, riam, dançavam, saudavam todos ao redor.

Meu pequeno quis saber de novo:
— “Mãe, quem são eles?”
Respondi:
— “São uruguaios. Eles falam espanhol.”

Ele sorriu, deu tchauzinhos, e muitos retribuíram.
Até aí, tudo bem. Tudo normal.

Mas então um brasileiro, dentro do vagão, me chamou a atenção.
Olhou pra mim, pra viola nas costas, e gritou alto:
— “Quero ver se toca violão!”

Possivelmente era a primeira vez que esse homem andava de metrô.
E olha, espero que tenha gostado.
Mas percebi que, pra ele, artista não pega metrô.
Artista, pra ele, é outra coisa — alguém intocável, cercado de seguranças, distante do real.
A arte, na cabeça dele, deve morar em palcos caros e telas de TV, nunca num vagão apertado com cheiro de cerveja e humanidade.

Um outro passageiro, mais gentil, perguntou ao meu pequeno qual era o instrumento que ele carregava.
E ele, orgulhoso, respondeu:
— “É uma escaleta.”
O homem sorriu, olhou pra mim e perguntou:
— “E o seu, é violão?”
— “Não”, respondi. “É uma viola caipira.”
Ele sorriu de novo.

Hoje, um amigo escreveu nas redes:

> “Não há nada mais pacífico do que uma pessoa carregando um instrumento musical.”



E eu fiquei pensando: pacífico pra quem?

Espero sinceramente que pra todos nós.
Espero que o artista e a arte não sejam vistos como algo fora do real,
mas como parte do que somos —
em qualquer lugar, em qualquer língua,
em qualquer estação de metrô.

Que se respeite a arte não só nos gols da vida,
mas também nas derrotas, nas dores, nas lutas, nas angústias
e no gozo nosso de cada dia.

Preciso gritar gol!

Eu preciso gritar GOL!

Preciso gritar gol quando é Copa do Mundo
e vejo em campo a luta de tantos povos.

Preciso gritar gol
porque passo a semana inteira enterrada
nos problemas da comunidade —
gente que vive uma realidade dura,
tão dura quanto a minha.

Preciso gritar gol.
É meu momento de catarse.
E não é só o meu.

É o grito de tanta gente.
O grito de tantos discursos.
O grito do povo oprimido na favela —
e de outros mais.

É o grito dos discursantes do busão,
que às vezes, pra minha tristeza,
discursam como “coxinhas”.

E isso me assusta.
Porque não há nada mais triste
do que um discurso-coxinha
ecoando dentro do ônibus,
no beco da favela.

Ser coxinha hoje
não é mais demérito da classe média.
É uma contaminação.

E eu me pergunto:
o que leva essas pessoas a acreditarem na mídia?
Essa mídia frágil, televisiva, manipuladora —
que vende uma ideia de realidade
embalada em luzes e slogans.

Pode ser romantismo,
mas penso que se cada um refletisse sobre o que vive,
sobre o que passa dentro e fora de si,
as relações seriam outras.

Com menos preconceito,
menos medo,
menos rótulos —
e mais humanidade.

Porque até quando fala de preconceito,
a mídia tenta enfiar outro goela abaixo.
E a gente engole.
Todos nós.

Eu fico feliz
quando vejo um amigo gritar nas redes:

> Vai, Argélia!
Vai, Costa Rica!
Dale, Uruguai!
Vai, Costa do Marfim!
Gana!



Porque sei que estão dizendo muito mais do que isso.
Desejam muito mais do que gol.
Desejam justiça social.
Desejam igualdade.
Desejam respeito.
Desejam o fim da opressão.

É só por isso que eu grito GOL!