sábado, 27 de junho de 2015

Ando de flerte com a loucura

Entre Eu e a Loucura

(fragmentos da mente que pensa e delira)


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1. Flerte

Ando de flerte com a loucura.
Num dia, sou eu.
No outro,
é ela quem me captura.


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2. Sopro

Há dias em que penso —
e o pensamento me sopra pra fora.
Outros, fico quieta,
pra não assustar o que ainda resta de mim.


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3. Espelho

No espelho, vejo outra.
Ela me olha em silêncio,
como quem sabe
que a verdadeira sou eu —
quando não me reconheço.


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4. Remédio

Tomam de mim o grito
e me devolvem o sono.
Mas o que cura
não é o comprimido —
é o sonho que resiste.


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5. Limiar

Penso, logo quase existo.
Vivo, logo deliro.
A sanidade é só uma palavra
mal escrita no prontuário.


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🌙 Epílogo do ciclo:
Entre mim e a loucura há apenas um fio —
feito de palavra,
feito de cura,
feito de queda.

sábado, 9 de maio de 2015

Adeus João U-balde Ribeiro!

Sentindo as dores do parto desde as oito da manhã,
no dia 6 de fevereiro de 2010,
fui caminhando em busca de um balde —
aquele no qual eu banharia meu filhote que estava por vir.

Encontrei o João U-balde numa dessas lojinhas de tudo um pouco,
aqui mesmo, na quebrada.
Um balde verde, vistoso, transparente —
onde eu poderia ver o pequeno corpo da criança
banhando-se feliz.

Por muito tempo, observei meu menino crescendo e mergulhando em João.
Mesmo depois dos primeiros passos,
com o corpo franzino e cheio de vontade própria,
ele insistia em tomar banho ali,
com João, U-balde, por perto.

O tempo correu no rio da vida,
e João foi mudando —
como nós também.

Ganhou novas utilidades:
ajudou a passar pano na casa,
guardou panos brancos embebidos em cloro pra quarar,
segurou águas, segredos, e o silêncio do cotidiano.

Mas o vínculo verdadeiro começou
quando João passou a suportar minhas madrugadas —
felizes, porém de estômago revirado.

Tantas vezes, ao chegar,
eu passava na lavanderia,
pegava João e o levava até a beira da cama,
pra não ter que levantar caso passasse mal.

Poucas vezes isso aconteceu (risos)...
Mas João sempre esteve lá.

Por mais de cinco anos,
ele suportou tanta coisa:
corpo crescendo dentro de si,
água quente, fria, álcool, desinfetante,
e até alguns desabafos —
não tão publicáveis, tampouco poéticos.

Com o tempo, João U-balde começou a dar sinais de cansaço.
Foi-se lascando nas beiradas,
rachando por cima —
onde ainda não doía.

Até que um dia, deu o suspiro final:
rachou por baixo.
Não servia mais pra segurar água,
nem pra passar pano na casa.

Ele suspirou.
Eu, não.

Ainda insisti —
passei pano com ele um tempo mais,
colocando outro por baixo
pra segurar a água que vazava,
como quem tenta sustentar o que já se foi.

Mas um dia nem isso deu certo.

Hoje, levei João à lixeira —
com o coração tão partido quanto suas rachaduras.
Meu último gesto foi enchê-lo de sacolinhas,
que esperavam ansiosas pra também partir.

Nessas horas, bate um trem no peito,
um desalinho...
e a gente se confunde.

Já não sabe mais
quem é o objeto,
e quem é o sujeito.

sábado, 18 de abril de 2015

A vida que transborda...

Naquele domingo,
ela permitiu que seu corpo levantasse
um pouco mais adiante do tempo
de costume.

Mesmo com as visitas em casa,
ela se permitiu —
sem culpa.

Levantou-se e foi preparar o café:
ritual arboreal e contínuo,
quase automático de todas as manhãs.
Mesmo não sendo tão cedo.

E como haveria de preparar mais café que o habitual,
pois havia mais gente em casa,
o pó — úmido, preto, cheiroso —
transbordou.

Transbordou como há muito tempo
ela não ousava deixar transbordar.

Derramou-se sobre a pia
um misto de cheiro e sabor quente,
inacreditavelmente suaves.
Sem culpa.

Transbordou assim —
como às vezes as coisas da vida
também saem do controle
e transbordam.

Dias antes,
a menina havia transbordado também.
Ao menos, foi isso que descobriu
em sua análise.

Mas não sentia culpa
por esse transbordamento da vida —
do sentimento,
das paixões,
das emoções.

A culpa não acompanhava
a estrutura do sentir.
A menina sentia.
E pronto.

Soube que transbordava
só depois da sessão.
Mesmo assim,
não se importou.

Segue transbordando:
vida, dor, paixão, tesão, desejo, vontades.

Só o desejo não transborda.
É traiçoeiro.
Escorregadio.

A menina não o alcança —
nunca, jamais.
Não toca, não cheira,
não segura.

Desejo é palavra-diamante:
indestrutível,
fria,
intocável.

É coisa que anda no bolso do outro.
A menina sabe que está lá,
mas não ousa pedir,
nem olhar.

Porque desejo é como mosca na sopa:
você mata uma,
e vem outra no lugar.

Visível, porém intocável.

E assim,
a menina viveu os dias:
um, outro,
e mais um...

Até que se deu conta
de um botão vermelho, astuto,
pregado à consciência —
chamado FODA-SE.

Depois que aprendeu a apertá-lo,
boa parte dos problemas
imaginários e cotidianos
se dissolveram.

Hoje, a menina dança.
Ainda dentro da roda da vida,
mas agora consciente
dos seus limites e liberdades.

Aprendeu onde fica o botão —
esse botão precioso,
libertador de culpas,
de sintomas que nem eram seus,
botão do gozo da vida.

E sempre que for preciso,
a menina sabe:

> Sentiu?
Transbordou?
Caso de emergência?
Botão do Foda-se.



Boa sorte a todo mundo.
Conheçam o botão.
Cada um tem o seu.
E todos são lindos.

🎶 Sugestão musical: “Mosca na Sopa” — Raul Seixas.

quinta-feira, 19 de março de 2015

O louco de cueca

O ano era 2007.
Tínhamos acabado de voltar de uma apresentação na Fundação Santo André — tempos de ocupação, protestos, gritos pedindo a saída do reitor.

Essa história é tão real quanto aquele instante em que você puxa as chaves da bolsa e, caprichosamente, vêm junto as bolinhas tailandesas.

Pois bem.
Chegamos — não eram ainda cinco da manhã.
A luz da casa de cima estava acesa.
A dona da casa, com os olhos esbugalhados e a cabeça pra fora da janela, repetia:
— “Acho que tem alguém aí, acho que tem alguém aí embaixo...”

Descemos com cuidado.
E o que vimos... nem real era.
Surreal.

Um homem sentado à soleira da porta.
Metade do corpo pra fora, metade pra dentro.
Vestia apenas uma cueca.
O resto — suas roupas, e o que sobrou da casa — se misturava em um cenário de guerra doméstica.

Cazuza dizia: “ficou tudo fora do lugar”,
mas ali, minha gente, Cazuza era café pequeno.

Tudo estava revirado:
mesa, fogão, cacos de vidro, arroz, feijão, travesseiros,
colheres, sapatos, roupas,
tudo banhado pelo galão de vinte litros que alguém havia jogado por cima.

Entrei no quarto.
As portas do guarda-roupa arrancadas,
a TV virada de tela pro chão,
colchões fora do lugar.

Nada se salvava —
só as roupas, depois de lavadas.

E o homem, o tal de cueca, dizia que não sabia de nada.
Os meninos que tinham nos ajudado com a aparelhagem queriam bater nele.
Não deixamos.
O pobre diabo estava bêbado demais pra apanhar.

Chamamos a polícia.

E como o destino adora ironia,
um dos policiais era meu colega da sexta série.

Perguntaram:
— “Existe alguém que não gosta de você?”
Respondi:
— Deve haver... mas nunca se apresentaram.

Ficaram conjecturando, tentando entender como tudo começou.
Eu também.
Talvez fosse só um bêbado errante,
batendo portão por portão até que um se abrisse —
e o azar foi o meu.

Foi muita loucura pra uma noite só.

Na delegacia, o homem já vestido,
deixou pra trás o tênis — cheio de molho de macarrão e cacos de vidro.
Pedi uma indenização simbólica.
Ele era ajudante de pedreiro.
A juíza estipulou o valor.
Dez parcelas.
E ele pagou, direitinho, pra seguir em liberdade.

Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
Apois... em 2010 caiu.

Outro bêbado, duas da manhã.
Eu amamentava meu filho de vinte e dois dias.
O homem entrou, segurando um PlayStation.
Morador do prédio também.
Errou a porta.
Meu companheiro viu quem era depois de dar uma voadora —
e o bêbado voou pra dentro da sala.
Ao menos esse estava vestido.

Depois disso, nunca mais dormi com a porta aberta.
Verifico toda noite se está trancada.
Sem mania — só uma vez, e pronto.

Até hoje, os amigos lembram e pedem:
— “Conta aquela história do louco de cueca!”

Pois tá contada.

E aos meus amigos bêbados, fica o aviso:
as portas de casa estão abertas pra vocês —
é só bater, e trazer uma caixinha de cerveja
pra fortalecer o rolê. 🍻

segunda-feira, 2 de março de 2015

O Bar do Zero à Zero


Hoje quero contar um pedaço da minha história com a música.
Um tempo que veio muito antes do Bar do Zé Bosta —
o tempo em que eu decidi que era hora de tocar pra valer.

Era a primeira vez que eu encarava o palco de verdade.
Não era mais fogueira com amigos, não era brincadeira de roda.
Era coragem.
Era necessidade.
Eu precisava viver, pagar contas, criar dois filhos.
Tocar a vida — literalmente.

Minha amiguirmã, Gi, veio morar comigo.
Foi ela quem trouxe o convite e a coragem:
“Bora fazer disso parceria de verdade?”

E assim foi.
Morando juntas, ensaiávamos quase todos os dias.
Nosso repertório era puro coração: Chico, Caetano, Gal, Raul...
E ainda resgatamos Sou Free, da banda Sempre Livre —
um trocadilho perfeito pra duas mulheres querendo ser livres.

Um amigo querido falou de nós pra um bar em frente à Metodista, no Rudge.
E lá fomos nós:
pedindo carona, sujando nomes pra comprar aparelhagem,
com o violão, os cabos, microfones e pedestais
equilibrados no busão do Jardim Represa ao Rudge Ramos.

Tocávamos às quintas.
E com o tempo, a aula de filosofia que a Gi frequentava
acabou se mudando pro bar.

A sala toda descia.
E ali, entre cervejas e canções,
a gente celebrava amizade, amor, loucura e poesia.
Quem viveu a filosofia naquele tempo sabe:
era foda.

Até os professores vinham.
Um deles, o professor Gutiérrez,
me deu um par de brincos lindos,
feitos pela Kelly, artesã-maluca.
E me presenteou também com seu livro de poesias.
Essas coisas que a vida dá — e a gente nunca esquece.

Durante um bom tempo,
tocamos ali atendendo pedidos —
o público da filosofia amava nosso repertório
ainda revolucionário e poético.

E tinha o garçom, o Seu Carlitos.
Que figura linda!
Mal chegávamos pra montar a aparelhagem
e ele já vinha:
— “O que vão beber hoje, meninas?”

Sinto saudades do Carlitos.
Um homem de alma doce, sensível,
que parecia sentir o que a gente sentia.

Com o tempo, até os motoristas do busão nos conheciam.
Abríamos a porta de trás pra entrar com a caralhada de equipamento,
e muitas vezes íamos cantando no caminho —
fazendo da condução um palco.

E assim a vida seguia:
a gente tocava com a fome da alma,
a fome do coração,
com a vontade de ser feliz e
fazer feliz — mesmo que só por um instante.

Mas um dia, a dona do bar veio com uma ideia:
“Quando o bar encher e render, eu pago tanto. Proporcional.”
Tudo bem, pensamos.
O bar vivia cheio.
Então o cachê viria, certo?

Errado.

Uma vez, pagou muito pouco.
Reclamamos.
Ela respondeu, sem titubear:
“Vocês não têm ideia do gasto que tenho com papel higiênico!”

Doía.
Mas a gente era valente.
Isso não nos derrubava.

Até o dia em que ela disse,
com a maior cara lavada do mundo:
“Meninas... hoje é zero a zero.”

Não deu um centavo.
Voltamos frustradas,
mas nem por um segundo pensamos em desistir.

O motorista que nos trouxe perguntou:
— “Ué, vocês não foram trabalhar?”
E respondemos:
— “Fomos. Mas hoje não recebemos nada.”

Ele riu, abriu a porta, e nos deu carona.
Voltamos cantando Raul Seixas,
tocando pra quem voltava cansado do trampo,
pra quem também precisava de um respiro.

Guardamos a dor no bolso,
e seguimos tocando —
com mais desejo do que nunca.

Grata, Zé Bosta.
Grata, Zero a Zero.

Hoje, sigo firme na música,
com a Suindara Rock Sertão,
música autoral, inspirada em literatura e amor.

O mundo precisa disso:
mais amor, mais poesia, mais coragem —
poética, política, ideológica, socialmente falando.

E eu sou.
Eu sou.
Eu sou o amor.
Da cabeça aos pés.

Bora povo —
com pressão, sempre! 🎤

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O Bar do Zé Bosta!

Já falei muito sobre o poço da solidão.
Subi o bastante pra ver a vida de outro lugar — e enxergar as voltas, os tropeços e os brilhos que ela dá.

Hoje quero falar do início do meu lado artista.
Arteira. Teimosa.
Aquela que não aguenta só sentir — precisa cantar.

Depois de um tempo tocando com a banda Suave Coisa Nenhuma, veio o fim da estrada.
E, com ele, o começo de outra: um projeto só com mulheres no palco.
Nasceu o Sansaras — nome inspirado no Sidarta, de Hermann Hesse.

Eu no violão, três nos vocais e uma percussionista incrivelmente incrível.
Às vezes me perguntam por que não toco mais em bar.
Respondo com sinceridade:
trauma.

A estrada é bonita, mas cheia de feridas.

Conseguimos esse bar no centro de São Bernardo — lugar bacana, pico cheio de expectativa.
Preparamos um repertório com todo o carinho:
Chico, Caetano, Raul, Marisa Monte, Secos e Molhados, Mutantes, Elis.
Tudo o que acreditávamos ser de bom gosto, de alma viva.

E lá estávamos: quatro mulheres tocando, abrindo vozes, sentindo cada nota.
Era fino, bonito.
Mas bonito demais pro dono do bar.

Um dia, ele chegou e disse, sem cerimônia:
— Ou vocês tocam músicas mais animadas, ou eu chamo o cara do outro lado da rua.

O mesmo cara que tinha nos indicado.

Ele queria música de rádio.
Música “de vender bebida”.
Mas a gente tocava do nosso jeito.
E é difícil equilibrar demanda e desejo, não é?

Até que ele soltou a pérola:
— Se um dia eu quiser que um cara compre uma garrafa de uísque, sente no balcão e comece a chorar, eu contrato vocês de novo.

Do eu-lírico pra lágrima foi um pulo.
Doeu.
Como se arte e música boa fossem só o que toca no rádio.

Mas a gente tinha público, sim.
Os amigos fiéis, a turma que acreditava junto, sempre colava.
Até aquele dia.

O bar estava cheio, o dono distribuía doses de pinga pra todo mundo.
Um cara perguntou:
— É de graça?
E ele respondeu:
— É de graça pra quem consome!

O sujeito então comprou uma breja e dispensou a pinga grátis.
Sangue frio, pensei.
Eu, se fosse ele, teria tomado.

Nosso corre era pesado:
montar, desmontar, pedir carona, carregar aparelhagem, pagar com o cachê a gasolina e o perrengue.
Mas o amor pelo som empurrava tudo.

Até que chegou o ponto final.
Ou melhor, o zero a zero.

O dono anunciou:
— Hoje é zero a zero, meninas!

Nem um centavo.
Voltamos frustradas, cansadas, mas não vencidas.

No caminho, o motorista do busão perguntou:
— Ué, vocês não foram trabalhar?
— Fomos. Mas hoje não recebemos nada.

Ele riu, abriu a porta, e nos deu carona.
Voltamos cantando Raul Seixas,
tocando pra quem também voltava cansado,
guardando a dor no bolso e o sonho no peito.

Aprendemos — ou talvez só criamos casca.
E é por isso que, quando me perguntam por que não toco em bar,
eu digo:
porque eu trabalho com arte.
E arte, no país do tchetchereretchê e da perereca suicida,
é resistência.

Não condeno os gostos —
entendo as diferenças, os contextos, a cultura.
Mas a minha onda é outra.

Hoje faço música autoral,
mesclando literatura brasileira e latino-americana,
porque sou uma mulher latino-americana,
sem dinheiro no banco,
sem parentes importantes,
vinda de muitos cantos desse Brasil,
seguindo as estradas que meu pai abriu com as máquinas e a coragem de um operário.

Nada pra esconder.
Nada pra lamentar.
Só uma vontade imensa de lutar pela música brasileira
— até os ossos, até o fim.

E se for pra tocar em bar, que seja o bar da vida,
onde ainda se brinda com poesia.

Pra encerrar, deixo minha trilha sonora:
🎶 Vida de Artista, do mestre Itamar Assumpção.

Escuto quase todo dia.
Porque quando alguém me pergunta
como eu consigo fazer tudo — tocar, cantar, escrever, criar, ser mãe, psicóloga, pós-graduanda —
é essa música que me responde:

> “Viva o que está rolando, menina.”



Sou assim:
vivo intensamente.
E sigo.

Mais beijos,
mais música,
e mais histórias —
porque as pérolas da estrada não param de nascer. 💫

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Uma sessão de análise


Hoje, quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015,
fui à sessão de análise meio sem saber o que dizer.
A não ser o acontecimento inusitado do fim de semana.

Mas o bom mesmo é ir assim —
sem saber o que dizer.
E, quando diz, ainda soltar:

> “Nem sei por que estou dizendo isso...”



E segue a sessão.

Sessão que, aliás, começa bem antes do consultório.
Começa no horário novo que tenho que chegar,
na grana que tenho que pagar —
e às vezes não tenho.

Começa na roupa que escolho vestir,
quando percebo que estou melhorando.
Antes, nada disso importava.
Saía de casa do jeito que estava.
Sempre em cima da hora,
com medo de sair à rua.

Hoje, fui lendo Clarice Lispector no ônibus.
Um livro difícil pra mim nesse período.
Leio um parágrafo e sinto vontade de queimar,
rasgar, jogar na parede,
arremessar pela janela.

Mas sigo.
Porque não me canso da coragem.
Mesmo sabendo que vai doer,
leio.
E vivo.

Às vezes, leio duas páginas e guardo o livro na bolsa —
com raiva e lágrimas.
É uma verdadeira relação de amor e ódio:
com Clarice, com o livro, e comigo mesma.

Hoje, sem grana pra pagar a análise,
mal pelo dia anterior,
mal pela leitura que me cortava por dentro,
cheguei.

E foi um dos dias mais significativos da minha história com meu analista.

Não só Clarice me perturbou,
como também os contos de Mulheres que Correm com os Lobos.
Trouxe o que consegui ler —
sobretudo A Mulher Esqueleto e Os Sapatinhos Vermelhos.
Parecia não ser o momento.
Mas não há “melhor momento”.

O momento é hoje.
Agora.
Ele vem, submerge, nasce e renasce —
porque já estava dentro, gestando,
esperando a hora de sair.

E hoje nasceu.

Saí chorando da sessão.
Peguei dois ônibus chorando.
Cheguei em casa e chorei mais.
Não de tristeza —
mas pela grandeza da compreensão.

Um misto de alegria e ausência,
felicidade e angústia,
vazio e mais vazio ainda.

O conto da Mulher Esqueleto deu o tom da conversa.
Se eu pudesse traduzir em música,
foi como se eu dissesse:

> “Se liga, vou te contar esse conto em lá menor.”



E meu analista, como bom compositor da alma,
me acompanhou nota a nota,
compreendendo cada escala.

Compondo comigo uma canção silenciosa
em que pude, enfim, reconhecer sentimentos
que estavam guardados, pisados, amortecidos, quase esquecidos.

Falamos a linguagem do desejo.
E o entendimento que tive foi incomensurável.

Feliz por saber o que não quero —
e não quero mesmo.

Não quero a falta de ética,
nem as fofocas com seus sintomas do cotidiano.
Quero o lado humano da vida —
seja com dor, sofrência ou alegria.

Quero me in-mundicizar da vida.
Quero viver o mundo in-mundo,
com ética.

Quero humanizar —
no sentido mais profundo, doloroso e rico dessa palavra.

Porque não sei viver sem sentir.
Tampouco sem fazer sentido.
Não só pra mim,
mas nas minhas relações com o mundo.

Dedico este texto ao meu analista.
Gracias pela troca.
Pelo afeto.
Pela música que fizemos juntos em lá menor.

🎧 Ouçam: [“9K3Wj5BZBF4” — YouTube]